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O casamento da minha pior amiga:eu mesma!
Ééééguas! Cuidar das dúvidas. Duvidar delas. Pensar nas dívidas, divagar sobre elas. No divã, divergir sobre as divergências. Meu analista de sistema “nervoso” sumiu. Meus dias se alteram entre uma paixão alucinada por mim e uma saudade úmida dos dias felizes que ainda existirão. Confusa. Contraditória. Metafórica. Jovial. Barroca! Tudo ao mesmo tempo. Silêncio sepulcral. Cio monumental. O sexo é que fode tudo! Esse amor por mim, começou num reveillon particular. Eu me tirei pra dançar Totalmente Demais : ” Linda como um neném, faz sexo bem...” Me afeiçoei. Sinto-me amada por mim. Pior, resolvi casar comigo mesma. Ainda pensei em me abandonar no altar. Mas eu estou muito gostosa pra me deixar solta por aí. E eu gosto é de romance com gente caótica. Afinal, o CAOS é um CASO desorganizado.OK! Casei comigo mesma com comunhão parcial de bens. Tudo o que eu tenho continua comigo.Ou seja:nada!Dizem que mulher não trai. Se vinga. Será que eu vou me trair em plena lua-de-mel? Só de ruim que eu sou? Um dos escritores da minha aflição, Nelson Rodrigues dizia: ” toda mulher bonita é a namorada lésbica de si mesma”. Pardon pelo cabotinismo! Todo esse amor por mim é nutrido enquanto espero um homem. Às vezes me sinto como a “mutilada que continua a sentir dor na perna amputada”. Mas sigo solenemente mastigando areia, pedra, sal, sol, e sou! Meus 69 leitores, taí um control C control V de uma das crônicas mais lindas do genial Rubem Braga: “A Mulher Esperando o Homem”. O meu amor por mim me impede agora de teclar... Fiquem com Deus. Já que vocês não podem ficar comigo. Boa leitura e beijos intermináveis no céu da boca. A MULHER ESPERANDO O HOMEM O TEMA da mulher esperando o homem há muito, muito tempo me fascina; sei que é velho, já serviu para sonetos, contos, páginas de romance, talvez quadro de pintura, talvez música. E eu que não sei fazer nada disso sou, entretanto, perseguido por histórias de mulher esperando homem, das mais banais às mais terríveis. Agora mesmo, quando passou o aniversário da revolução Húngara, eu me lembrei que de todos os relatos, alguns dolorosos, horríveis, de gente que fugiu da Hungria, havia o de uma mulher que contou com simplicidade sua história; e foi o que mais me impressionou quando o li, de madrugada, no meu quarto de hotel em Nova York. O marido saíra para a revolução e lhe disse que ela não saísse de casa de maneira alguma, esperasse sua volta. Chegou a noite e ele não veio; passou a noite inteira acordada,e ele não veio; no outro dia entraram na rua tanques russos atirando, e veio outra vez a noite, e veio outro dia ,e veio outra noite, e ela esperando; cochilava um pouco sentada, acordava assustada julgando ouvir os passos ou a voz dele, até que chegou por um parente a noticia de que ele morrera. Ela então saiu de casa e ─ “ como eu não tinha mais nada que esperar’’, segundo disse─ fugiu para a fronteira da Áustria. Não sei por que, achei que essa mulher sentiu um alívio ao saber que não devia esperar mais; acontecera, naturalmente, o pior. Mas a angústia de esperar cessara. O homem ausente era como um carcereiro que a prendia no lar transformado em câmara de torturas. Ela agora estava desgraçada, mas livre. * * * Mas não é preciso haver guerra nem nenhum perigo; nesta madrugada em que escrevo,em Ipanema, quantas mulheres não estarão esperando os maridos? Aquela pequena luz acesa em um edifício distante é talvez o apartamento da mulher insone que já telefonou meio envergonhada para várias casas amigas perguntando pelo marido, que já olhou o relógio vinte vezes e tomou comprimido pra dormir,ligou a Rádio Relógio,tentou ler uma revista velha, fumou quase um maço de cigarros. Não importa que seja a esposa vulgar de um homem vulgar; e que no fim a história do atraso dele seja também completamente vulgar. Neste momento ela é a mulher esperando o homem;e todas as mulheres esperando seus homens se parecem no mundo e se ligam por invisível túnel de solidariedade que atravessa as madrugadas intermináveis. Todas: a mulher do pescador, a mulher do aviador e a do revisor de jornal, a do milionário e a do ministro protestante... Devia haver um santo especial para proteger a mulher esperando o homem, devia haver uma oração forte para ela rezar; ela está desamparada no centro de um mundo vazio. Ela começa odiar os móveis e as paredes; a torneira da pia lhe parece antipática; a geladeira que aliás precisa ser pintada, é estúpida porque ronca de repente e depois o silêncio é mais quieto. A cama é insuportável. *** Devia haver um número de telefone especial para a mulher que está esperando um homem chamar, reclamar providências, ouvir promessas insistir, tocar outra vez, xingar,bater com o fone.Devia haver funcionários especiais,capazes de abastecer essa mulher de esperança de 15 em 15 minutos,jurar que todas as providências já foram tomadas “estamos seguros de que dentro de poucos minutos teremos alguma coisa a dizer à senhora...’’ E diria que pelo menos no necrotério ele não está, nem no Pronto-Socorro, nem em delegacia nenhuma; mas não diria isso de uma só vez, e sim através de informes espaçados, que fossem formando etapas de ansiedades, que quadriculassem lentamente a insônia. *** A mulher que está esperando o homem está sujeita a muitos perigos entre o ódio e o tédio, o medo, o carinho, e a vontade de vingança. Se um aparelho registrasse tudo que ela sente e pensa durante a noite insone, e se o homem, no dia seguinte pudesse tomar conhecimento de tudo, como quem ouve uma gravação numa fita, é possível que ele ficasse pálido, muito pálido. Porque a mulher que estar esperando o homem, recebe sempre a visita do Diabo e conversa com ele. Pode não concordar com o que ele diz, mas conversa com ele. Rubem Braga,nov/1957
Escrito por Dadá Coelho às 19h18 [] [envie esta mensagem] | ||||||||||||